Dona Zica: doçura no olhar, militância no sangue e coragem na alma

A história de Dona Zica é uma de lição de vida

Por Neide Diniz

Se você pedir os olhos e imaginar uma mulher acima de 80 anos, qual é a imagem que vem à cabeça? E aí, o que me diz? Melhor não responde agora! A primeira vez que esta história é apresentada, pode ser que você queira rever seus conceitos. Para começar, é uma outra coisa: brinquedos de última geração, que há pouco tempo na faculdade e tem 6 filhos, 20 netos, 37 bisnetos e 3 tataranetos você conhece? Arrisco-me a afirmar, que a partir de agora, no mínimo uma. Ela é chamada carinhosamente de Dona Zica, mas nasceu Anazir Maria de Oliveira, em 20 de junho, na cidade de Manhumirim, em Minas Gerais, há 85 anos.

Chegou ao Rio de Janeiro, aos 15 anos, aos 17 anos, viveu matrimônio, que por causa da morte do marido, por não tão completo como as bodas de ouro e os seis anos, perdeu o único irmão que sobreviveu à infância, de uma família de onze filhos. “Apenas me lembro de uma menina de cinco anos e de um menino de dois que foram sepultados, na mesma semana. Naquela época, faltou desconhecimento e falta de aprimoramento tecnológico sem tratamento de doenças ”,  recorda a Dona Zica com olhos marejados de saudade de um passado difícil, que traz à tona uma lembrança materna repleta de orgulho:  “ minha mãe foi pai e mãe ” .

Aos 85 anos, Dona Zica é pura inspiração e esbanja bom humor, jovialidade e simpatia.

A força desta trajetória pode ser usada em uma voz, voz, turbante, colares, calça estampada e com um smartphone na mão. Ela é antenada, determinada, uma mulher realizadora! Uso sem nenhum momento, sem seu papo, ela cita. Assim como Dona Zica, a luta é substancial, sem serras morais nem muito menos, autopromoção. Ela iniciou um trabalho como os nove anos e hoje, mesmo aposentada, dedicada à concessão de direitos e profissionalização das empregadas domésticas. Tornou-se uma referência nacional pela regularização da profissão. “Meu primeiro passo como articuladora de movimento pela classe, foi dentro da igreja. Sou católica e tive formação

Há muito mais voltagem para as questões sociais, trabalhei nas CEBS (Comunidades Eclesiais de Base) e nas pastorais, principalmente, na pastoral do trabalho ”, conta Dona Zica.

Em 1973, o setor começa a ser transformado pela defesa do proletariado, no bairro onde mora até hoje, a Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste do Rio. No entanto, foram apenas três edições domésticas entre os homens que discutiram, em outras coisas, base de dados, dissídio coletivo, e elas não entendiam nada. Passaram uma questão de uma relação com o grupo e resolução de um só país de domésticas. Lembra-se de uma estratégia: “ todo homem que vem aqui tem em casa uma esposa ou filha que é doméstica, vamos convidar estas mulheres” . Para atraí-las tem uma ideia: convidou as mulheres para falar mau das patroas. “Não

é que deu certo! Hoje é uma troca de experiências, uma roda de conversa, né? , Entreenta entre risos. O grupo cresceu, como atuações e também em 1º de maio de 1976, realizado com o apoio da Paróquia Católica de Vila Aliança, o 1º Encontro de Domésticas da Zona Oeste, do Rio de Janeiro.

A viajar para o Brasil, especialmente para Brasília, para acompanhar a tramitação de projetos. O diálogo com bases instituiu as Associações e a Federação Nacional das Mulheres Domésticas, com filiadas em 15 estados do país. Que também proporcionou alianças e parcerias internacionais. A participação em palestras e confrontos levou a Dona Zica, em 1985, a um movimento de endogenias em Bogotá, Colômbia. Nisso, ela já arranjou o momento e momento momento se intimidou. Assumiu o compromisso e foi lá dar o seu recado. “Era uma lista de direitos legais para mulheres e homens e era uma única doméstica. No entanto, fui convidada a expor uma experiência que não tem grupo de trabalho, nem assembleia de encerramento. Com isso, surgiu uma proposta de aumentar a participação de representantes de base. Na seguinte, uma proposta da criação da Federação. Sem dúvida, um avanço! , Lembra satisfeita.

Em Vila Aliança, em Bangu, Zona Oeste do Rio, Dona Zica iniciou e continua sua militância pelo social.

Dentre os resultados de anos, Dona Zica, em 1989, assume a presidência da criação do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Município do Rio de Janeiro, o primeiro do Brasil. Atualmente, é uma organização que presta serviços e participa em palestras, universidades e organizações sociais e políticas. Destacada que teve outras funções, o Sindicato orientou uma instituição sobre o contrato de trabalho, por exemplo. E faz um alerta:  “a carteira de trabalho não fica com os patrões, eles são assinados e devolvidos à empregada. “A gente toma muitos casos com os patrões de ficar sem carteira e quando usa uma carteira não está assinada” .

Inclusive, o sindicato, também, oferece o serviço de guidance ao empregador. No entanto, mais do que celebrar a conquista de direitos, ela defende com veemência a apropriação da lei. “Para mim, as fases iniciais do processo de lei: 1972, com a garantia da carteira assinada, 20 dias de férias e a contribuição para a previdência social. Depois, em 1988, quando veio o terceiro voto prioritário, aviso prévio, licença-maternidade, folgas nos domingos e o direito de se organizar em sindicato. E 2013, com a classe de equiparada à categoria superior, com FGTS, seguro-desemprego, salário-família, jornada de trabalho de 44 horas semanais, hora extra e adicional noturno ” , sentencia.

Mais, as conquistas e os próprios desafios. “Nossa principal bandeira continua sendo sua carteira assinada” , aponta Dona Zica, que continua:  O nosso maior desafio sempre foi a afetividade. Muitas vezes, criando os laços e os laços acabam sendo maiores do que os direitos. E aí, a gente também ver como as formas de opressão mudaram, mas a indústria continua a mesma. O que antes chamávamos de Casa Grande, hoje são como grandes mansões e como amas de leite, como babás ” .

O recorte histórico é comprovado pelo estudo feito em parceria pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ministério do Planejamento e ONU Mulheres. Compilação de dados atestam uma predominância de mulheres negras na classe trabalhadora ao longo dos tempos. Em 2015, o quadro geral dos aparelhos de saúde chegou a 6,2 milhões, correspondendo a 3,7 milhões de acções e 2 milhões de euros. “Esta herança da escravidão ainda alimenta a inferioridade das famílias e como uma posição de grande importância, a camuflagem de um membro da família, o que é um direito reivindicar os direitos” , salienta.

As dificuldades cotidianas, muito menos a idade a impedem de lutar pelo que acredita.

Dona Zica contabiliza vários casos de domésticas que por anos trabalharam acreditando que eram da família e na velhice, foram dispensadas sem ter onde morar e muitas vezes, até sem constituir família consanguínea. “O principal ponto é não confundir o profissional com o pessoal. Na casa da patroa, não posso levar meus amigos na hora que quero, não posso frequentar a área social a qualquer momento, nem sentar e assistir um programa na TV quando sinto vontade, muito menos preparar o que quiser comer aleatoriamente”, e frisa: “com raríssimas exceções”.
Mas segue enfaticamente: “também temos relatos de muitas
domésticas com sérios problemas de saúde porque dormiam em quartos entulhados de produtos químicos”
.

Por fim, sentencia: “a empregada doméstica tem de ter sua casa, por mais simples que seja e precisa entender que o filho da
patroa não é o filho dela. Quando falo isso, muitas não gostam, mas o histórico de solidão e abandono é muito grande”
.

Dona Zica não para, também se dedica ao trabalho social com jovens da periferia, especialmente de sua comunidade. A mais recente ação é o encontro com jovens americanos da Universidade do Texas em Austin para proporcionar intercâmbios e bolsas de
estudos. Ela tem uma vida de militância, em que o pessoal está intrinsecamente ligado aos seus ideais sociais. A pedagoga, pós-graduada e, em 2016, formada em Serviços Sociais, expressar a amor na fala e respeito na atitude. “Quando a gente conta, parece que foi fácil, mas foi muita luta, muito sofrimento, muito preconceito. Tivemos apoio de parlamentares, como de Benedita da Silva, que é nossa representante de honra, mas esta luta é nossa! É das domésticas!”.

Ao final da entrevista, Dona Zica ressalta que a luta pelos direitos das domésticas tem grandes destaques, entre eles: Laudelina de Campos Mello (1904-1991) e Odete Conceição, que enfrenta grave problema de saúde.

Agora vamos retomar a pergunta inicial, responda sinceramente: imaginou este perfil? É ou não é, uma #mulherincrivel ?

Para filiar-se ao Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Município do Rio de Janeiro:

Comparecer a sede do sindicato com carteira assinada, identidade, CPF e pagar uma taxa de R$ 12,00.

Av. Paulo de Frontin, 665 – Rio Comprido – Tel. (21) 2273-2699 (Segunda a Sexta – 10h às 16h)

Para conhecer mais sobre Dona Zica, click em: “Dona Zica: eu acredito na luta” o documentário

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